Monday, July 16, 2007

Exposição MALG

Pelotas / RS
Abertura 24 / 7 / 2007


A Transmutação da Forma

Antônio Augusto Bueno começa seu trabalho pela forma da cabeça, construída em gesto quase único. Num diálogo intenso com a matéria, esta forma primeira tende a desaparecer em meio a tantas linhas que partem e chegam de todas as direções possíveis, configurando novas formas. Como cartografias imaginárias, estes desenhos criam constantes enigmas para o olhar; a sucessão de passagens de um feixe de linhas a outro estabelece um ritmo: a linha deixa-se ficar e depois acelera para então perder-se entre muitas outras.
Antônio é econômico nos materiais utilizados, costuma aplicar apenas grafite, pva e alguns pigmentos sobre tecido ou papel. O desenhista economiza nos meios utilizados para realizar seu trabalho, mas não nas formas, pois estas são muitas e determinam a expressão do todo, conseqüência da compulsão de riscar sobre o suporte. As linhas multiplicam-se a todo instante, inscrevendo-se para sempre numa constante repetição de gestos que delineiam novos rumos, deixando para trás a sua primeira marca, já esquecida ante toda a trama.
Este percurso instigante deixa rastros, pistas para novas investidas. Os desenhos surpreendem pelo seu nexo interno; nosso olhar não sossega, pelo contrário, inquieta-se na busca de absorver todas as qualidades ali presentes. Os devaneios nos levam a caminhos onde a memória escorre procurando significados e revisitamos o trabalho na busca daquele olhar que tudo alcança, mas que neste momento não vê senão a complexidade do contexto. A originalidade da obra de Antônio nos coloca em meio a uma tempestade, através da qual uma cortina se levanta com o intuito de desvelar a obra. Ainda assim, ela continua envolta no seu próprio mistério, na sua poesia, na sua capacidade de trama singular que transforma nossos sentidos, deixando-os suspensos na busca da chave para desvendar os jogos de significados ali contidos.
As séries de trabalhos, nas palavras do próprio artista: “colocados lado a lado vão formando uma história, um filme que se movimenta lentamente quadro a quadro, no qual essas cabeças e essas formas pontiagudas vão se transformando. Contam algo que não sei o que é, ou se sei não falo, pois seria como dizer à presa que entre os gravetos e as folhas secas existe uma armadilha.”
[1] Armadilhas para o olhar, pois somos capturados pela instigante aventura de perder-nos numa floresta, de riscos e rasgos; somos a presa agora, hipnotizados, tentando reagir quando achamos um ponto para respirar num espaço em branco, mas isso dura pouco, pois estamos inelutavelmente presos.
O desenho, para Antônio, é pura expressão de seus sentimentos mais subjetivos e o que podemos ver é o resultado desse adentrar-se em si mesmo para libertar-se das amarras. A obra é Antônio, Antônio é a obra. Eles são indissociáveis. Não posso imaginá-lo sem desenhar por muito tempo. Como disse uma vez Amílcar de Castro: “O desenho é fundamento, uma maneira de pensar. E pensar, em arte, é desenhar, porque, sem desenho, não há nada.”
[2]. Antônio é assim: vive o desenho intensamente. Mesmo quando faz suas esculturas, lá no universo do barro, também estão a cabeça e as linhas desenhadas com arames queimados.
Podemos pensar a obra de Antônio Augusto Bueno como uma construção simbólica através das linhas. Ele parte da figuração para chegar à outra coisa, como metáforas, que relaciono com o trabalho de Paul Klee, um artista que conseguiu, através da linha, uma estabilidade entre o inteligível da forma e seu mistério. As formas usadas por Antônio nos permitem concluir que ele consegue impor o equilíbrio e a harmonia por meio da linha, mas o que podemos ver não é tudo, pois, o visível apenas nos dá sinais do invisível que está latente na sua obra e que transcende os seus limites.

Notas:
Ana Zavadil. Bacharel em História Teoria e Crítica de Arte .Instituto de Artes. UFRGS

[1] BUENO, Antônio Augusto. Cabeças: armadilhas para um significado. Projeto de Graduação em Desenho. DAVI, Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004.
[2] CASTRO, Amílcar [ Depoimento Belo Horizonte, 1999]. In: Gravura: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural, Cosac & Naify, 2000. p154.

1 Comments:

Blogger Leo Furtado said...

Vamos conferir!

3:58 PM  

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